Texto, ninguém lê
Prove-me o contrário: leia até o final.
Eu era criança e já esperava, toda sexta-feira, a entrega pontual pelo correio (veja como faz tempo isso!) da edição impressa da revista Veja.
Sim, porque só existia a versão impressa das revistas semanais — dela, da Istoé, ou da Manchete. Outras revistas eram mensais e bem mais específicas, como Pais & Filhos, Capricho, Marie Claire; ou os gibis como Turma da Mônica, Recruta Zero e Turma da Luluzinha. Sem falar, é claro, da Status, Ele & Ela e Playboy, com suas excelentes “entrevistas”.
Mas a questão é que a leitura dessas revistas era um deleite, ainda mais para leitores em formação. Matérias bem escritas, com assuntos interessantes e bem apurados. Reportagens de fôlego vinham com oito páginas ou até mais, e continham não só a apresentação dos fatos, mas explicações claras e fundamentadas para que o leitor formasse sua própria opinião. Claro, havia algumas “barrigadas”, excessos e até algumas manipulações, tal como em capas sensacionalistas, que são lembradas até hoje; mas, na proporção dos crimes que se praticam atualmente, a maioria dos deslizes eram questões para os tribunais de pequenas causas.
Mas dificilmente se encontrava uma revista mal escrita.
Naquela época, a primeira leitura estava nas Páginas Amarelas, com entrevistas de celebridades — editadas, claro, pois estávamos ainda no tempo da reabertura. Mas o que gerava a maior expectativa eram os textos de humor, que vinham logo a seguir, escritos pelo Millôr e, numa fase posterior, pelo Luiz Fernando Verissimo. A gente consumia sofregamente os diálogos, as situações e até mesmo a pontuação e ritmo na escrita desses mestres. Hoje, quem gosta de escrever é porque leu esses mestres.
Tínhamos as notícias da semana, os escândalos, as apurações. Mas havia também o texto ágil da coluna Radar, que só dava notas; e as críticas de artes, música e literatura, textos temidos pelos artistas, mas que mostravam aos leitores os lançamentos e contextos de obras que poderiam ou não entrar na lista dos mais vendidos, atualizada toda semana.
Tudo era escrito com estilo, pontuação impecável, respeito à inteligência do leitor e ao idioma — com amor, mesmo, pelo texto.
E os anúncios. Belíssimas peças publicitárias, principalmente de automóveis e cigarros — Hilton, Charm, Free, Hollywood, Marlboro, L&M, entre outros. A maioria era predominantemente visual, mas quando tinha texto… o copy (como se diz hoje) era matador. Com o perdão do trocadilho.
Quando apareciam revistas raras ou interessantes, principalmente estrangeiras, economizávamos o lanche da escola para comprá-las nas bancas. Hoje, não temos mais bancas. Revista, mesmo, não existe mais por aí, a não ser quando tem averiguação da Polícia.
A fase delas foi passando, mas a razão para esse declínio, a meu ver, não foi só a chegada de uma tecnologia. Foi quando se instalou nas redações um senso comum: texto, ninguém mais lê. Isso tanto não é verdade que você chegou até este ponto aqui, comigo…
Com a internet, ficou fácil guardar texto, mandar texto, achar texto — coisa que antes dependia de banca, assinatura ou paciência com o correio. Por outro lado, foi se espalhando a noção de que “texto bom é texto pequeno”, de preferência menor que a pressa e a vontade de pensar. Surgiram o vídeo de dez segundos e o post com foto de prato em restaurante. Ao que tudo indica, isso não foi matando só as revistas. Acabou matando as ideias.
Hoje, ainda tem gente que gosta de escrever e gente que gosta de ler, e isso é ótimo. Porém, está cada vez mais desanimador perceber que uma grande parte dos leitores quer o texto curtinho, a piada rápida, os 149 caracteres de uma pálida ideia espremida. Ou pior: lê tudo e interpreta errado o que leu, ou o que acha que leu. Como disse Mario Quintana: quando o leitor pergunta ao escritor o que ele quis dizer, é porque um dos dois é burro. Eu não sou muito, e você, é?
E ainda tem a questão do algoritmo, esse acaso moderno que eu não faço a mínima ideia de como funciona. No fim, se um texto encontra leitor, continua sendo quase um jogo de azar.
É isso aí, bicho. Vale o escrito.


