Supermercado
Episódio da Série “O Que Me Tira do Sério”
Ah, os supermercados… quanta alegria perder-se (e perder a paciência) em seus corredores…
Quando a tendência chegou ao Brasil, acho que nos anos 80, dizia-se que os mais prejudicados seriam os mercadinhos do bairro, aqueles com bananas penduradas em cachos, ovos avulsos e prateleiras de secos e molhados. Mas, hoje em dia, observando as grandes redes anabolizadas por termos como Hipermercadão, Mega-Atacadão, ou o tal famigerado “Atacarejo”, percebo que as grandes vítimas nisso tudo somos nós, pobres consumidores (e consumidores cada vez pobres), que acabamos diminuídos a cada visita a esses templos do consumo irrefreado. Fazer “o rancho do mês” se transformou em “dar uma passadinha” (do limite do cartão, inclusive).
Foi pensando nisso que escolhi o tema Supermercado para abrir a Série “O Que Me Tira do Sério”. Uma coletânea dedicada aos aborrecimentos cotidianos, que todo mundo enfrenta e quase ninguém mais aguenta.
Destarte, aqui vão algumas das ocorrências que mais me tiram do sério quando urge a necessidade inadiável de comparecer a tais estabelecimentos:
Carrinho com roda emperrada
Você entra decidido a fazer compras em linha reta e sai fazendo drift involuntário pelos corredores, como se o carrinho tivesse vida própria e um plano de fuga.
Produto que muda de lugar toda semana
Você jura que o molho de tomate ficava ali. Agora está no corredor 12, entre ração de gato e vela aromática. O supermercado te faz acreditar que você é o esquecido.
Degustação que te obriga a comprar
Você aceita o pedacinho por educação e, de repente, está levando para casa um queijo caro que você nem sabe pronunciar o nome direito.
Promoção “leve 3, pague 2” de algo que você só precisa de um
Você entra para comprar um item e sai estocando o suficiente para atravessar um cataclismo nuclear.
Leitor de código que não funciona
Você tenta descobrir o preço naqueles terminais de consulta e não tem jeito. Depois, o caixa passa o produto cinco vezes e a máquina apita como se você estivesse tentando levar um objeto suspeito.
Preço na prateleira diferente do caixa
O produto custava R$ 9,99 até cruzar a linha do caixa, quando sofre uma valorização misteriosa digna do mercado financeiro.
Gente que bloqueia a geladeira enquanto decide a vida
A pessoa abre a porta e fica contemplando o universo, enquanto você congela atrás dela esperando só pegar a manteiga.
Criança (ou velho) dirigindo carrinho e batendo em você
Você vira a esquina da gôndola e recebe um golpe na canela. Ou pior, te atropelam o calcanhar por trás, sem que você tenha chance de desviar ou revidar.
Gôndola sendo reabastecida bem na frente do que você precisa
Dois repositores, três pallets e um empilhamento estratégico impedem justamente a única via de acesso ao produto que você mais precisa na sua lista.
Produto em promoção que não tem mais
O cartaz na entrada oferece felicidade, economia e prosperidade. A prateleira vazia só responde: “Chegou atrasado, campeão.”
Pessoa que abandona o carrinho no meio do corredor
Ela estaciona o carrinho e vai comparar rótulos com calma monástica, enquanto você faz manobras dignas de prova prática do Detran.
Música ambiente repetitiva
Depois de quarenta minutos, você não sabe mais se está comprando ou preso num elevador com som ambiente, tocando música genérica e letras horríveis geradas pela inteligência artificial.
Ter que ir ao supermercado quando se está com fome
Você entra para comprar pão e sai com porcarias suficientes para alimentar uma excursão escolar.
Produtos indeterminados
Esse é para quem, como eu, é mandado e recebe uma listinha escrita à mão. No meio dos produtos de limpeza, só uma palavra singela: “Veja”. Daí você chega lá e percebe que tem, espalhados na prateleira inteira, o Veja da embalagem azul, o Veja Tira-Limo, o Veja Limpeza Pesada, o Veja Limpa Vidros, e por aí vai. A solução é ligar, sentindo-se um imbecil por perguntar qual é o Veja da lista, ou dar meia-volta e fingir que nem viu.
Cliente que resolve conferir preços no caixa
Só quando chega a vez dele é que resolve decidir se leva ou não cada item. A fila vira a esquina na gôndola, mas ele continua ali, meditabundo.
Fila que não anda — até você trocar de fila
A sua fila vira uma performance/instalação artística/flashmob sobre o tempo parado, mas basta você mudar para a outra que a primeira corre em velocidade olímpica.
Caixa que fecha bem na sua vez
Você espera quinze minutos na fila e, na boca do caixa, o operador anuncia: “Último atendimento”. O cara à sua frente é esse próximo. Nunca você.
Sacola que rasga já está no estacionamento
A sacola escolhe exatamente o momento em que você está quase escapando dali para romper e espalhar suas compras pelo chão. Principalmente as cervejas.
Perder o carro
Você roda o estacionamento apertando o alarme como quem chama um cachorro desaparecido.
Ter que voltar para devolver o carrinho na chuva
Depois de organizar tudo no porta-malas, você encara o retorno do carrinho sob chuva, pensando: “era só ter comprado menos coisa que dava pra levar na mão”.
Chegar em casa e perceber que esqueceu o principal
Você compra vinte e três coisas inúteis e esquece justamente o café, o arroz ou o papel higiênico — pilares definitivos da civilização contemporânea.
Mas, sem problemas: amanhã você volta lá.


