Sabedoria popular
Ou como algumas frases curtas resumem as grandes verdades da vida.
Volta e meia fico imaginando quem inventou, ou de onde vieram, certos ditados populares.
Sei que uns têm origem conhecida: Shakespeare nos deu o famoso “há mais coisas entre o céu e a terra”..., e a Bíblia trouxe outros, como “Quem semeia vento colhe tempestade” e “Não há nada de novo debaixo do sol”. Mas os que realmente me fascinam são os de procedência incerta, criados sabe-se lá por quem e aperfeiçoados pelo uso ao longo do tempo.
Gosto daqueles que resumem as situações incômodas do dia a dia. É o caso de “Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça”, “É melhor escapar fedendo que morrer cheiroso” ou, numa versão mais filosófica, “Passarinho que come pedra sabe o cu que tem”.
Um ex-amigo meu dizia que, se os filhos da puta voassem, viveríamos sob a noite eterna. Infelizmente, parece que ele também resolveu alçar novos voos.
Mas o que me trouxe a esse assunto foi outra decepção. Descobri recentemente que o ditado que eu imaginava ter nascido de uma anedota popular era, na verdade, o slogan de uma campanha publicitária da Receita Federal nos anos 1980.
Continuo preferindo a história que ouvi há muitos anos:
Um dia, o circo chegou à cidadezinha do interior. Era daqueles bem mambembes, com três palhaços, uma acrobata, um mágico em fim de carreira, um malabarista e olhe lá. Mas o dono havia acabado de conseguir comprar um leão. Sim, um leão de verdade — meio velho, diga-se de passagem, mas ainda relativamente saudável e vistoso, com a juba praticamente intacta.
Só tinha um problema: não havia domador no elenco. Sobrou para um dos palhaços, que recebeu uma cadeira, um chicote e algumas instruções de última hora antes da estreia.
No dia marcado, a população se aglomerou na fila para garantir lugar na arquibancada precária, montada com ripas de madeira. Cada um sentou onde pôde, tentando se ajeitar como o espaço permitia.
Começou então o espetáculo.
Primeiro vieram os palhaços, depois a acrobata, o mágico... mas a plateia, entre poucos aplausos, queria mesmo era ver a atração tão esperada.
Foi então que os tambores anunciaram a entrada do leão.
O palhaço abriu cautelosamente a jaula.
O bicho saiu, caminhou até o centro do picadeiro e… deitou.
Silêncio.
A plateia começou a vaiar. Que leão mixuruca era aquele?
Pressionado pelo dono do circo, o domador improvisado precisou agir. Primeiro, apontou a cadeira para o animal. Nada. Depois estalou o chicote. Sem querer, acertou o lombo do leão.
E isso foi o suficiente.
A fera rugiu e avançou.
O público entrou em pânico. Todos se levantaram ao mesmo tempo para tentar fugir.
Bem na primeira fila, um velho bêbado havia conseguido lugar para sentar exatamente na emenda de duas tábuas da arquibancada. Quando a multidão se ergueu de uma só vez, as madeiras voltaram à posição original e prenderam o saco do infeliz.
Enquanto o leão perseguia o domador e a multidão tentava escapar, dava para ouvir, em meio ao pandemônio, o velho berrando:
— Senta, minha gente! Senta, que o leão é manso!



