Pequenos consertos
Mais uma saga na série “O que me Tira do Sério”
Parece que tem uma época do ano em que as coisas da casa combinam entre si de quebrar, ao mesmo tempo: eletrodomésticos, uma cadeira, uma quina da parede que descasca ou lasca, um chuveiro que queima, uma luminária que resolve não acender mais. Muita gente tem os paranauês de consertar tudo por conta própria, o que não é o meu caso. Só que encontrar quem faça o serviço (e por um preço justo) é tão complicado que às vezes eu mesmo me arrisco. E quase sempre preciso chamar alguém depois para consertar o meu conserto.
Dando continuidade à série “O que me tira do sério”, o assunto da vez são essas pequenas coisas que quebram — inclusive o bolso e a paz de espírito da gente.
Nesta edição, adotarei um critério classificatório quanto ao nível de irritação resultante, com ícones variando numa escala de um a cinco, sendo o nível cinco o máximo em matéria de aporrinhação:
Lâmpadas & Tomadas
Apesar dos riscos envolvidos em todo e qualquer trabalho com eletricidade, trocar lâmpadas ou consertar tomadas deveria ser tarefa relativamente simples para quem tem ao menos uma escada e as ferramentas adequadas. O que, normalmente, não é o meu caso. Mesmo assim, acabo me metendo a fazer essas coisas porque acredito que qualquer imbecil também conseguiria. Mas esqueço que não sou um imbecil qualquer. Cada vez que empreendo algo na parte elétrica, os filhos dos vizinhos ampliam notavelmente seus repertórios linguísticos de pragas e palavrões. Na maioria das vezes, não encontro a fita isolante (que sempre some da caixa de ferramentas) e reaproveito os pedaços que já estavam ali, no fio, o que resulta em repentinos estouros ou estalos. Até o momento em que escrevo este texto, isso só me causou leves queimaduras na ponta dos dedos.
Chuveiro queimado
Evento sazonal, quase sempre no inverno, o defeito no chuveiro elétrico costuma acontecer quando você já está embaixo da ducha, de manhã bem cedo. Na maioria das vezes o problema é só a resistência que queimou. Mas quem disse que a gente tem isso em casa, guardado, de reserva? Só nos resta sair tremendo e pingando, e ir até a loja de materiais de construção procurar outra, com as mesmas especificações técnicas da original. Isso, quando não acontece daquele modelo de chuveiro já ter saído de linha e não existir mais peças de reposição para ele. Comprado o novo chuveiro, começa outra novela: falta fita veda-rosca (que desapareceu junto com a fita isolante) e sobra a instalação elétrica para queimar os dedos. Depois de tudo isso, a ducha fica mais fraca que a anterior e ainda solta um pingo de água fria na cabeça da gente, de tempos em tempos. Se não, fica vazando bem na emenda do cano. Aí, adentramos outro desafio, exposto a seguir.
Cano de água vazando
Já que a hidráulica não está na minha formação ou rol de habilidades, quando percebo um cano furado ou vazamento, tenho a humildade de admitir, após fechar o registro (se possível), que é necessário mesmo chamar um especialista. Quando o registro do banheiro estragou e um cano começou a vazar copiosamente, liguei para o primeiro encanador 24 horas que encontrei. Ele ouviu em linhas gerais o problema, perguntou o endereço, e disse:
— Me explica melhor isso aí, que dependendo o que for, pra mim não compensa.
De qualquer forma, vazamentos de água tornam-se eventos inesquecíveis para toda a família, pelo pânico e desordem que causam em todo o imóvel, não se restringindo ao cômodo afetado. O piso fica inundado e escorregadio, e não há panos suficientes para conter o fluxo das cataratas que se formam. Isso, se você tiver sorte e o vazamento for visível, porque se estiver dentro da parede, a situação piora. Só muito tempo depois, quando o reboco já estiver se desmanchando, é que a gente percebe a extensão do próximo problema.
Conserto e/ou pintura de paredes
Até dá pra fazer sozinho, mas você já sabe de antemão que vai se irritar muito, e não vai ficar bom. Por outro lado, é difícil achar mão-de-obra especializada e disponível quando é coisa pouca a fazer. Não sei, parece que os pedreiros e pintores têm dificuldade em lidar com pequenos consertos. Prometem vir num dia, e não aparecem; quando finalmente chegam, fazem tudo correndo para pegar outro serviço que pague melhor. Vale o ditado: “a pressa passa, a merda fica”. Paredes tortas, manchas na pintura, piso coberto de caliça ou de tinta, se não as duas coisas misturadas. Sem falar que, quando chove, o pedreiro/pintor sempre invoca a desculpa de que o tempo não ajuda. Já quando a chuva é pra valer mesmo, acaba estragando o reboco ou a pintura quase prontos, ao vazar por…
Calhas & Telhados
Você está dormindo tranquilamente, embalado pelo tamborilar das gotas de chuva que caem lá fora, quando, aqui dentro, bem em cima da sua cama, surge uma goteira. E depois outra. E mais outra. Daí é pegar umas vasilhas e baldes, e esperar a chuva parar. No dia seguinte, se o tempo permitir, você até arrisca subir no telhado, mas acaba quebrando mais telhas do que trocando as que já estavam quebradas. O que sobra? Chamar alguém, preferencialmente um profissional, que seja mais experiente (e mais leve) que você. Quando as calhas entopem, formam uma piscina suspensa sobre o forro, que você só percebe quando a água desaba dentro de casa. Pelo menos, dá pra economizar no chuveiro, que a essa altura já deve ter queimado de novo.
Grama & Jardim
Nunca entendi quem acha relaxante empurrar uma máquina barulhenta pelo quintal, criar bolhas nas mãos e depois ensacar toda aquela grama. Prefiro chamar um jardineiro, gente mais preparada e acostumada para essa lida, que dá cabo (com enxada ou rastelo) melhor e mais rápido do que eu. Isso, se o profissional não acabar acertando com a máquina o cano do relógio d’água, o que nos faz retornar ao tema já tratado anteriormente (vide “cano de água vazando”, acima).
Móveis & Armários
Finalmente, o vice-campeão da lista: a alegria de receber em casa o móvel novo, mesmo que ainda na caixa, vai se esfarelando tal qual o compensado do qual é feito, à medida em que você tenta armá-lo, seguindo as instruções nebulosas do manual de montagem. É claro, se você encontrar a chave de fenda, escondida em algum lugar junto com a fita isolante. No fim, o móvel fica de pé, ainda que meio torto, mas sobram vários parafusos, você descobre que montou uma prateleira ao contrário e vai ter que desmontar tudo para corrigir o problema. Caso em que é altamente indicado contar com um verdadeiro profissional, para que não se transforme em…
Coisas que já vêm estragadas
Finalmente, o top da lista: você recebe o produto pelo correio e ele chega danificado ou com peça faltando. Daí é uma luta para conseguir resolver a questão com o vendedor ou comprar a peça que falta, por conta própria. O caso mais recente: comprei uma panela de pressão (para ver se eu cozinho melhor) e… voilà! Não é que a porra veio sem a válvula principal? Reclamei com o vendedor, e me ofereceram um reembolso de 10%, ou aproximadamente R$ 19,90. A mesma peça, avulsa, no mesmo site, sai em média R$ 70,00. Claro, vou devolver o produto. Mas a obrigação de embalar a panela, levar até o Correio, etc., é toda minha. E o reembolso só vem se estiver tudo certo na devolução.
Pior mesmo é quando o eletrodoméstico chega perfeito e quem estraga é você, o idiota que não lê manual de instruções e acaba ligando tudo na voltagem errada. Quase sempre naquela mesma tomada que você “consertou” por conta própria.
















