Ovos
A espera na área de emergência do hospital foi breve, mas extremamente angustiante.
Chegou ao hospital de ambulância. Trazido às pressas, com intensa dor abdominal, foi imediatamente colocado numa maca e transportado para a primeira avaliação pela enfermeira-chefe quanto aos seus sinais vitais, procedimento executado excepcionalmente ainda no pátio do estacionamento, na entrada da unidade.
Constatou-se, ali, a gravidade da situação.
Avisado, um plantonista veio menos de cinco minutos depois à triagem, para fazer a anamnese possível, de urgência. De cara, um simples toque no baixo ventre já fez o paciente emitir um intenso frêmito de dor.
Sem demora, precisou ser encaminhado ainda na mesma maca até o raio-x da unidade, onde passou à frente dos outros pacientes que aguardavam a chamada para exame, devido ao óbvio risco de morte que enfrentava. Removido num movimento ágil da maca para a cama de procedimento, foi deixado à sós na sala escura e fria com o auxiliar técnico, que vestiu em si o colete de chumbo e posicionou o paciente na posição correta, logo abaixo do canhão de radiação.
Pléc!
A técnica em radiologia, que operava o equipamento separada por uma grossa parede na sala ao lado, sinalizou pela pequena janela que o exame havia corrido bem e que o paciente estava liberado.
Com isso, o técnico autorizou a entrada da enfermeira, que aplicou no paciente uma injeção mágica para a dor, a qual fez aos poucos todos os sons e luzes se apagarem diante dele, transformando a realidade imediata num imenso mergulho no nada.
Acordou horas depois. Estava num quarto do hospital.
Na parede, um painel de luz branca, aceso, onde estava afixada a sua radiografia. Naquela chapa plástica, entre ossos da bacia, viam-se duas grandes massas brancas, bem na região do baixo ventre.
Coisa boa, não poderia ser.
Entrou um médico mais velho do que o plantonista, aparentemente supervisor ou especialista convocado para atender ao caso. Só perguntou brevemente como o paciente estava se sentindo, pois sua atenção estava quase que totalmente absorta na interpretação do raio-x.
— A dor inicial passou, mas ainda sinto bastante desconforto...
O médico virou-se lentamente e deu um largo sorriso:
— Mas isso é ótimo! Meus parabéns!
O paciente ficou sem entender o motivo da exultação do médico.
— O senhor tem ideia da sorte que tem? — perguntou ao paciente.
Ele não fazia ideia de que sentir essa dor e ter duas massas enormes no abdômen poderia ser algo a se comemorar, como se fosse a sorte grande…
— Pois então: veja, esses são ovos! — exultou o médico, mostrando a chapa contra a luz.
O paciente estava confuso: como assim, meus ovos? Não estão no lugar certo?
— Não, não estou falando de suas gônadas... Você está começando a produzir ovos mesmo!
— Como assim, produzir ovos? — tornou a perguntar ao médico.
— A princípio, pensamos que fosse um caso raro de mutação tipo ornitorrinco… mas, agora, devido aos exames complementares e a leitura do seu raio x, a resposta é definitivamente outra!
— Que ovos são esses? — quis saber ainda mais o paciente, cada vez mais impaciente.
— Ainda não sabemos a composição exata. Seria necessário fazer uma punção para análise do material… mas, visualmente, já é possível identificar que não são 12 — são 15, ou até mesmo 20!
— Como assim? Só vejo dois na radiografia…
— Não, não estou falando da quantidade… mas no tamanho deles!
Já de saída, o médico, ainda orgulhoso pelo sucesso da descoberta, fez questão de parabenizá-lo mais uma vez com um tapinha nas costas:
— Agora, o senhor não é mais um coelho qualquer. É, oficialmente, o novo Coelho da Páscoa!
E, antes de fechar a porta, deixou um último conselho:
— Prepare bem a saída, que esses dois primeiros já estão a ponto de vir…



