Desatenção plena
Antigamente, quando a gente fazia bobagem por ser distraído, não recebia diagnóstico de neurodivergente. Recebia um belo puxão de orelha, era chamado de tongo, e ficava por isso mesmo.
Era quase uma maldição, ou traço característico de personalidade, estabelecendo um folclore pessoal que muitos acreditavam curável na base de uma boa surra; e outros, considerando essa condição irremediável, simplesmente evitavam atribuir ao distraído quaisquer tarefas que pudessem ser críticas ou perigosas para ele — ou, principalmente, para os outros.
A desatenção tem impacto já na vida escolar. O distraído, apesar de ser chamado toda hora de relaxado pela professora, passa os dias tenso, imaginando qual o próximo vexame que vai dar em sala de aula. Uma rotina angustiante, ainda mais para quem, como eu, costumava esquecer a lancheira, não sabia em que dia da semana estava e deixava de dar corda no despertador pensando que o dia seguinte era sábado. Ou então, acordava cedinho para esperar o ônibus e não perder a prova, só que no domingo não tinha ônibus nem prova.
Mais tarde, mantive esse hábito e também faltei ao vestibular (esqueci do dia da prova); em outra ocasião, buscando evitar o mesmo erro, fui às seis horas da manhã prestar um concurso público que começava às 9h; o porteiro me recepcionou, sério, fechou o portão e, depois de dez minutos um olhando pra cara do outro, entendeu do que se tratava. Fez então o favor de me informar que a prova era só na semana seguinte. E que não era ali, mas em outro prédio.
Mas nem só de datas vive o esquecimento. Nomes e fisionomias também são seus alvos preferenciais. Mais de uma vez cumprimentei perfeitos desconhecidos achando que eram colegas e ignorei amigos de longa data por achá-los só meio parecidos com quem realmente eram.
Teve uma vez que uma menina acenou para mim, e é claro que eu fui conversar sem ter a mínima noção de quem ou de onde era ela.
Vários minutos depois, lancei no ar, para tentar pescar: “E aí, o que tem feito de bom?”
Ela me disse: “Terminando minha tese sobre a música no cinema”.
“Que bacana” respondi, animado — tínhamos pelo menos um ponto de partida. “Pois eu acabei de fazer um curso exatamente sobre esse tema!”
“Eu sei. Fui a professora.”
Depois, pela ordem, vêm os objetos inanimados. Óculos, chaveiros, celular, carro estacionado na rua ou no shopping. Colocar uma meia, ou sapato, de cada cor, em cada pé. Documentos? Perdi mais de uma vez. Carteira de trabalho, tive pelo menos três, e não foi por excesso de empregos. Sem falar nos campeões do esquecimento: guarda-chuvas e isqueiros. Estes, apesar de eu ter parado de fumar já há alguns anos, ainda hoje insisto em procurar nos bolsos da calça quando vejo alguém segurando um cigarro apagado.
Finalmente, chegamos às desatenções mais graves: esquecer o forno ou o ferro de passar ligado, a janela aberta nos dias nublados, a reunião marcada há semanas no trabalho, buscar os filhos na escola, o aniversário de casamento…
Mea culpa, mea maxima culpa… Mas, ufa!, ainda bem que tem quem se acostume!
O importante para sobreviver e conviver com a desatenção plena é saber lidar com ela com bom humor. Veja o caso de Mark Twain, famoso escritor e humorista, a quem aconteceu algo mais ou menos assim: saiu para visitar um figurão e tratar de negócios, esquecendo-se de usar a gravata protocolar. Ao voltar para casa, levou uma baita bronca da mulher pela descortesia diante do possível cliente. De imediato, chamou um mensageiro, que levou ao figurão uma bandeja com a gravata e um bilhete, com o pedido: “Desculpe-me, estive em sua presença sem esta gravata por vinte minutos. Favor olhar para ela pelo mesmo período de tempo e imaginá-la em meu pescoço”.
É isso. Ou esqueci alguma coisa?
P.S.: Desculpem a minha pressa e falta de atenção nesta crônica. Eu tinha escrito outra. Mas esqueci de salvar.



