Apelidos
O povo tem mania de reinventar as coisas — até mesmo o nome dos outros...
Esses dias andei falando horrores dos homônimos. Agora é a vez dos apelidos.
No início, para identificar quem eram as pessoas, inventaram os nomes e sobrenomes — nas pequenas comunidades o cara era identificado como “filho do fulano” (Jesus bar Abbas, o Barrabás da Bíblia; Johanson — filho do João — nos países nórdicos; Zeca de Tonha, no sertão do agreste). Ou então, conforme a profissão exercida: os Schumacher fazendo sapatos, os Müeller movendo moinhos, ou os Smiths fazendo metalurgia. E, séculos depois, músicas tristes, sensíveis e cheias de arpejos.
Muitos sobrenomes nasceram só porque o sujeito morava perto de uma pereira, de uma oliveira, ou de um monte. Ao longo da história, sobretudo na Idade Média, surgiram também os apodos e cognomes. Que nada mais são do que os tatavôs dos nossos atuais apelidos: Felipe, o Belo; Pepino, o Breve; Guilherme, o Conquistador. Só esses, em si, dão uma crônica própria. Mas vamos nos ater aos nossos contemporâneos.
Ninguém ganha apelido à toa. Sempre é por conta de alguma característica física, semelhança com algo, com alguém, ou por algum comportamento característico. Sendo assim, a origem do apelido vem da própria pessoa. O gozador só viu ali algo que já estava bem à frente de todos. Faltava alguém para verbalizar.
Apesar de muitas vezes maldosos, os apelidos me parecem, no fim das contas, uma forma muito particular de reconhecimento. Porque quando alguém tenta “colar” um apelido em você, na verdade ele tem uma necessidade muito especial de te diferenciar de todos os outros — nem que seja te sacaneando.
Em resumo: só tem apelido quem merece destaque.
É claro que a maior parte dos apelidos nasce justamente daquilo que a pessoa gostaria de esconder. Soube de um cara que não queria mais ser conhecido como Cabeção. Reclamou tanto que os colegas passaram a chamá-lo de Corpinho.
Tem apelido que é mera corruptela. Conheci um Alencar que não era Alencar. Na verdade, o sobrenome dele era bem germânico. Mas, como chefe da firma, nas conversas entre os subalternos era tratado sempre como “Seu Alencar - o Alemão do Car*lho!”.
O Tim Maia, por exemplo, trocava propositalmente o nome dos outros. Talvez fosse uma forma de apelidar e tirar um sarro na cara deles, como se o lapso fosse involuntário: o cantor Fábio, que o hospedou em sua própria casa durante o tempo de dificuldades, passou a ser chamado de Fabiano para o resto da vida.
Mas existe também o caso dos apelidos arbitrários. Como o de um colega meu, dos tempos de colégio, que chegou transferido e foi convidado pelo professor no primeiro dia de aula a se apresentar diante da sala — seu nome era Ronaldo, ele disse. Mas tão baixinho e envergonhado que pouca gente escutou. Aí surgiu o gozador, por azar sentado bem à sua frente, falando alto como se fosse o porta-voz dele:
— Ele disse que é Ronaldo, mas que prefere mesmo Chicão.
E Chicão ficou.
Até hoje.
Anos depois, perguntei ao “padrinho”:
— Mas por que Chicão?
— É que ele tem cara de Chicão mesmo. Só isso.
Também há os nomes que já nascem parecendo apelido: Brisa, Sol, Jade, Cristal. Ou nomes convencionais que acabam “contaminados” por obras como novelas de televisão ou, pior, pelas propagandas, e se transformam em apelidos. Coitados dos Bráulios, que chegaram a processar o Ministério da Saúde e a agência que fez a campanha publicitária incentivando o uso de camisinhas no Carnaval, na qual um ator conversava francamente com seu “bráulio”. Aliás, esse tema também merece outro texto, só dele. Quem sabe, outra hora. No duro.
Para encerrar o assunto de hoje: o cara entra no hotel em um país qualquer da América Latina, vai preencher a ficha de hóspede e invariavelmente está escrito ali: apellido.
Daí ele vai lá e preenche: “Tenho. Mas não conto”.



