Aniversário
Aniversário bom, só quando é dos outros. E olhe lá.
(Da série “O que me tira do sério”)
Fazer aniversário deveria ser uma das coisas simples da vida: é mera questão de continuar vivo. Um evento que simplesmente acontece, basta deixar o tempo fazer a sua parte e a morte não vir para atrapalhar. Ainda assim, ano após ano, essa data chega, trazendo consigo pequenas obrigações sociais, expectativas generalizadas e rituais que a gente não sabe muito bem por que continua cumprindo. Quando o calendário retorna ao mesmo ponto em que estava no momento do seu nascimento, mobiliza-se todo um ritual comemorativo: bolo, velas, abraços e mensagens. É preciso sorrir, agradecer presentes improváveis, responder algumas mensagens sinceras e muitas outras automáticas, no Facebook; participar, enfim, da encenação coletiva de que este dia significa, de fato, alguma realização extraordinária da sua parte.
Talvez por isso eu me sinta levemente exausto em fazer aniversário todos os anos. Não apenas pelo avanço inexorável da idade, mas pelo esforço psicológico em sustentar esse clima de celebração — como se fosse necessário reconhecer, a cada volta completa da Terra em torno do Sol, que ainda precisamos reunir os outros para comemorar a nossa própria existência. Entre balões e parabéns, descubro que até mesmo a alegria, quando vinculada com essa regularidade anual do calendário, dá um certo cansaço na gente.
Foi pensando nessas coisas que anotei algumas das situações que acontecem em aniversários e que entram naquela categoria “o que me tira do sério”. São minhas observações, ilações, deduções, inferências, cogitações e similares, sobre alguns dos aspectos mais comuns dessa comemoração que se convencionou chamar de “seu dia”:
O aniversário obrigatório
Você não queria comemorar, mas alguém organizou uma festa “em sua homenagem” — e agora você precisa parecer feliz por, pelo menos, duas horas.
Comentários etaristas
Gente que faz questão de repetir em voz alta a idade que você acaba de completar, estimulando comentários: “Nossa, tudo isso, já?”
Reminiscências de parentes
Alguém da sua família resolve contar as histórias cabulosas da sua infância, geralmente envolvendo suas mancadas, birras ou fraldas: “Tá vendo esse aí? Cagou e mijou no meu colo!”
Presente coletivo
Amigos fazem uma vaquinha para comprar algo que você já tem dois. E a loja não aceita trocas.
Presente misterioso
Você não sabe quem deu — e, se for roupa, não te serve e você não descobre onde fazer a troca.
O presente reciclado
Você percebe que acaba de receber de volta um presente que você mesmo deu ao seu convidado no ano anterior. Geralmente é um livro que você já tem na estante ou já leu antes.
A festa surpresa
Você percebe de surpresa que a festa surpresa foi organizada… na sua própria casa. E, aparentemente, ninguém parece disposto a ficar para ajudar a limpar a bagunça depois.
Convidados-debatedores
Acabam reunidos na festa amigos seus de diferentes lugares e ambientes, muitas vezes antagônicos em suas visões políticas, religiosas ou esportivas. Caberá a você mediar os conflitos ou apartar os sopapos.
Parabéns interminável
Alguém começa o “Parabéns pra você” em um tom, outro continua em outro, e a música nunca termina porque cada grupo recomeça, tentando acertar o ritmo, o tom ou o andamento.
Parabéns performático
Inventam uma versão elaborada da música com palmas, passos e gestos, e você é instado a participar dessa coreografia ridícula.
Parabéns repetido
Além disso, sempre tem um retardatário que chega e pede pra todo mundo cantar de novo.
A criança hiperativa
O filho do seu amigo decide que o bolo é dele e passa o dedo escondido para lamber a cobertura, antes mesmo do parabéns.
A criança possessiva
Pior ainda, o filho do seu chefe decide que o aniversário é dele, o que obriga todo mundo a cantar parabéns de novo para ele apagar as velas do bolo com cuspe.
A disputa da primeira fatia
Duas pessoas acham que têm direito à primeira fatia do bolo — a mãe e esposa do aniversariante, por exemplo, e acabam se engalfinhando por isso.
Confeitaria instável
Na hora de cortar, o bolo inteiro desliza do prato direto para o chão.
Comparativos
Aquele convidado que sempre comenta, seja sobre o bolo, seja sobre a festa como um todo: “Ano passado estava muito melhor”.
Marmita & Farnel
Convidados que, na hora de ir embora, pedem pra fazer um pratinho de doces e de bolo para viagem. E, pela quantidade que pegam, estão indo para bem longe.
A foto eterna
Demoram tanto para organizar as pessoas ao redor da mesa para a foto que as velas queimam sobre a cobertura do bolo.
Parabéns em restaurante
Quando é fora de casa, garçons chegam de surpresa com o bolo, cantando alto, como se estivessem num musical da Disney, enquanto todo o salão de desconhecidos fica olhando para você.
O pós-festa
Quando todos vão embora e você fica sozinho com balões murchos e restos de bolo, espalhados em pratinhos sujos e no chão, pensando: ano que vem tem tudo de novo.
Pensando bem, no fim das contas, fazer aniversário pode não ser algo tão ruim assim. No fundo, trata-se menos de ser congratulado ou congratular alguém por um feito que não depende de nós, e mais um reconhecimento e aceitação afetuosa, e até com certo espanto, de que a gente continua aqui, apesar de todas as coisas. E, considerando a quantidade de imprevistos que a vida costuma oferecer, talvez essa nossa persistência — ainda que involuntária — seja motivo suficiente para acender as velas. Não sendo quatro, uma em cada canto do esquife, já está de bom tamanho.


