A Tempestade Inesperada
Uma história de outras copas.
Viu-se no meio da tarde deitado de costas, com pernas e braços abertos, exatamente no círculo central daquele campinho de várzea. Sozinho. Olhos vidrados nas nuvens, vento forte no rosto, numa daquelas viradas bruscas de clima típicas do mês de junho. Em câmera rápida, flocos de algodão-doce transformavam-se em amargos cúmulos-nimbus, cinzas espalhadas com descuido pelo céu cada vez mais escuro.
Levantou-se, sobressaltado, sem saber direito o que estava acontecendo.
E os primeiros pingos da chuva começaram a fustigar seu rosto.
Sob os pés descalços, sentiu a grama rala castigada pelos chutes dos meninos do bairro. Perto da grande área, onde o gramado era quase lama, parou um instante e fez o gesto habitual de arrancar um pequeno tufo para, com um sinal da cruz, pedir proteção — ou se proteger dos céus.
A bola de capotão esperava por ele, silenciosa, na marca do pênalti. Mas o som dos trovões estava cada vez mais próximo e o fez mudar de ideia. A tempestade inesperada chegaria com fúria a qualquer momento, sobre ele e sobre o mundo inteiro.
Calçou de qualquer jeito as chuteiras surradas, botou a bola embaixo do braço e saiu correndo até a árvore mais próxima. Era a sua árvore favorita. Um enorme pé de oiti, esconderijo e torre de observação, de onde assistia e invejava a habilidade dos mais velhos, seus passes e chutes certeiros ao gol. No fundo, só queria ser aceito e entrar em campo contra eles. Faria o que fosse preciso para estar lá, de frente para o gol. E até o impossível para tornar-se ainda maior do que todos os outros que vieram antes dele.
Mas foi tudo muito rápido. A tempestade finalmente o alcançou.
Um clarão explodiu ao seu redor, devastando a copa da árvore, com estrondo e violência. Galhos transformados em pedaços retorcidos de carvão fumegante, espalhados ao redor, agitando-se num espasmo incontrolável.
Exatamente como seu corpo estava agora — caído no chão de um quarto de hotel.
Os colegas ao seu redor, assustados, tentavam entender o que estava acontecendo com ele e ajudá-lo de alguma maneira.
Estava de volta à Paris, 1998.
A partida final seria à noite. Naquele mesmo dia.



